18 de janeiro de 2010
21 de dezembro de 2009
6 de dezembro de 2009
26 de novembro de 2009
17 de novembro de 2009

Entre aquelas velharias que não tinham serventia, encontrava-se uma velha foto. Nos anos, o tempo havia desgastado seus cantos, os pequenos animais haviam feito mínimos buracos ao longo de todo o rosto de bebê que ali se encontrava. Era confuso olhar cada pedaço e recordar exatamente do que se tratava. Porque antigamente aquela mesma foto em tons apagados devido ao advento de novas máquinas, teria um valor inestimável e a faria possuir sentimentos. Hoje já não sentia mais isso. Estava apagada. Então, devagar, soltou a foto na mesa do hall e foi até o café, buscar o cappuccino. A garçonete ruiva estava lá, derrubando seus panos e anotando pedidos. E para sua surpresa, o homem de Saint Paul estava sentado ao balcão, conversando com o dono mal humorado do bar. Entre suas mãos, jornais, notícias atuais, fotos e tragédias. Sem sentido, pensou. Sem reflexões também. Afinal, pensar em tantos problemas antrópicos a deixava mal. Pegou o cappuccino e não se atreveu a olhar para o homem da catedral. Ele a fizera pensar por muito tempo em alguém que a aquecesse no ar frio de Londres, e preferia não ter que relembrar que fora em partes ignorada. Virou, abriu a porta, saiu pelas ruas ouvindo sua música, entrou em casa depois de ter passado pelo velho caminho de pedras, e pegou a foto velha. Sabia o que deveria fazer.
17 de outubro de 2009

Partimos do pressuposto de Adão e Eva. Certamente mantemos nossas dúvidas se a maçã nos condenou a seres pensantes, se era nosso “destino” ou se ela realmente existiu. E é claro que tudo isso nos leva novamente a questionamentos e loucuras datadas desde antigamente.
Então, pode-se supor que havia mesmo uma maçã ou que houve a ruptura do núcleo de um átomo, pois chegaríamos ao mesmo objetivo: nós. E que não haja nem religião nem ciência que predomine sobre minha conclusão.
Se estivéssemos nus, fazendo colheitas em plantações de subsistência e nossos maridos caçando para a janta, poderíamos não ter tecnologia ou qualquer coisa tão habitual ao nosso alcance que não sentiríamos falta, afinal, não saberíamos de sua existência. Poderíamos evoluir aos poucos, mantendo nossas classes sociais de acordo com a aldeia, tendo nossas diferenças não tão acentuadas como as perceptíveis atualmente.
Aí entra o papel do fascinante homem em partes desastrado. Mas não é pra ser uma história cômica. Do caminho das Índias ele fez um grande desvio e acabou encontrando a América. É claro que na época era considerado um descobrimento e Colombo ficou com a glória de encontrar uma nova civilização. O que foi descartado dessa história talvez fosse importante, ou não. Essa é a nossa história, a história de um povo que já lutou contra o Império, a ditadura. Se fosse diferente, poderíamos desenhar vários outros caminhos até chegarmos no melhor. O problema é: como saberíamos chegar até ele?
Da ambição chegamos à maçã, e da ambição também chegamos à teoria dos átomos e até onde a vantagem de ser pensante nos levou.
Então, se ocorresse progresso no continente que segundo os livros já era evoluído, um dia nos achariam e a colônia de exploração seria iminente. Tamanhos recursos encontrados aqui seriam atrativos demais para ser deixado passar em branco. E assim, seu desenvolvimento seria muito maior do que à época que nos colonizaram.
De tudo isso, vem a força de vontade de sobrevivência, que fez o homem se adaptar inconscientemente a tudo que vinha passando. Suas necessidades o faziam se adaptar, e essa constante mudança, felizmente ou infelizmente, ninguém é capaz de afirmar sem prós e contras, o fez ficar cada vez mais próximo dos sete pecados. Evidentemente, esses foram ditados também. Ainda existem aqueles que sofrem o medo de cometê-los.
As organizações de sociedades antigas, sem o advento do comércio, indústria ou qualquer outro tipo de atividade que envolvesse sistemas sociais, eram beneficiárias igualmente. Então se fala da utopia, pois desde os antigos, não houve jamais uma sociedade sem diferenças sociais ou raciais. Mesmo dentro de famílias nota-se uma posição patriarcal dos pais sobre os filhos, sobretudo o homem, que desde o princípio era considerado o chefe de família.
Então até hoje me pergunto: se essa maçã existia, Adão e Eva foram tão ambiciosos a ponto de prová-la e fazermos andar vestidos, pensando e julgando (até mesmo mal) tudo que nos contradiz e não nos favorece. Agora, se ocorreu a explosão dos átomos, julgo a mim mesma incapaz de julgar alguém, porque não existia Adão e Eva de acordo com a teoria da evolução. Consideremos Adão e Eva nossos antecedentes e nossos iguais e nos espelhemos neles para nos tornarmos tão ambiciosos que mal conseguimos enxergar além de nós mesmos e, quando conseguimos, não nos movemos para alcançar a mão ao nosso semelhante.
7 de outubro de 2009

De fato, sentir saudades era dolorido. É claro que era uma das coisas mais comuns encontradas no emocional de alguém. O dia estava ensolarado, e ela viu novamente a sua sombra cruzando paredes e pedras disformemente. Lá estava ela aos seus pés, representando a única coisa que não era menor que ela, e sim “alguém” que a idolatrava por nunca possuir a cor e o privilégio da vida. No resto, só tinha uma coisa a fazer: segui-la. Incessantemente. Até que o sol se pusesse, e a escuridão chegasse fazendo ela se unir à outras sombras que possuíssem o mesmo sentimento de inferioridade. Como ela já tinha observado há muito tempo atrás, tinha uma simpatia com sua sombra. Se parecia como uma amiga, pois a seguia até mesmo pelos caminhos mais tortuosos… E no escuro, quando achava que já não a via mais, descobria que a escuridão era uma grande aliada. Como alguém a disse um dia: “Os momentos e sentimentos são vividos aos extremos pelos poetas.”. Ela achava mais do que necessário possuir a solidão como um conforto e um incômodo. Paralelamente às antíteses, sentia-se confusa, frequentemente acordava e apenas observava a janela à sua frente, assistindo o tempo passar, ouvindo os segundos irem embora a cada tique compassado do seu relógio de cabeceira. Talvez fosse fácil e simples assim, não fazer o tempo valer a pena, e sim apenas deixá-lo passar. Depois de arrastados minutos, sua parede áspera e verde limão, nada condizente com o andar clássico abaixo de seu quarto, a chamou. Ela voltou à si mesma. Precisava levantar, desejar “Bom dia” à Lennon e buscar o seu cappuccino. Ali, ela somente sobrevivia.
“Escape from this afterlife.”
30 de setembro de 2009

Sentou-se no café. Sua fumaça fazia os contornos do seu rosto, exatamente como um sonho que teve há muito tempo atrás, em Saint Paul. O quente queimava seus lábios, sua pele sentia o sentido do café descendo em sua garganta, era a justificativa de seu nervosismo a consumindo. Porque todos que sempre a tiveram a jogaram fora, como simples papéis, uma conta de supermercado, um bilhete de geladeira. Não saberia o quão valiosos poderiam ser, por isso em sua caixinha guardava até uma pequena embalagem de um remédio. Era o caso que, quando o via, se reportava ao antigo. Mas as pessoas sempre eram frias e, as que não eram, tinham um sentimentalismo tão exagerado que não viam nada além do que quisessem. Não existia meio termo. Ou o papel ficaria na geladeira para sempre, ou iria ao lixo junto com tantas outras coisas. Mas aí o sentimental vai se questionar se valerá mesmo o custo de manter no mínimo dois quartos abarrotados de botões e capas de cd’s quebrados que, por exemplo, lembram uma saia destituída do seu completo e um descuido por estar ao lado de alguém especial. E aí tanto cuidado com objetos pessoais acabar se tornando maçante ou prazeroso, e é claro que o maçante, ao se desfazer de tudo, vai se tornar um frio por não guardar mais datas ou um desinteressado em um passado bom. O prazeroso vai ser taxado de louco por guardar coisas que para os frios são chamadas de “lixo sem valor”. Mas entre frios, sentimentais, maçantes e compulsivos, há uma data (sempre há ao menos uma) que nunca será esquecida e um papel ou um pequeno fruto em um pequeno saco que jamais irá ao lixo.
26 de setembro de 2009
Levantou-se calmamente para ver o clima do seu novo dia, e alegrou-se por sentir mais um dia típico de Londres. Só que esse dia era primaveril. Buscou lá no fundo do seu armário surrado uma calça vermelha e preta e vestiu-a. Depois colocou uma blusa e um casaco que alcançava seus joelhos, ambos pretos. Achou o seu lenço vermelho e o amarrou ao pescoço. Como em outros dias, os seus cabelos estavam ondulados, porém, no seu lugar costumeiro. Já estava farta de pensar em sentimentos. Se fumasse, provavelmente já teria acendido ao menos uma carteira de cigarros para controlar sua ansiedade sem origem nem objetivo. Se fumasse mas quisesse parar, tinha a certeza que teria uma recaída. Mas, ah… Aí estava a notícia boa: ela não fumava. Uma preocupação a menos, enfim. Só que ela ainda possuia uma dependência cuja abstinência já estava a deixando elétrica. Precisava do seu cappuccino. Não sabia como as pessoas poderiam não gostar de café. Até o aroma parecia em partes satisfatório da sede. Passou pela sala e deu uma piscadinha para o grande quadro envelhecido de John Lennon em sua parede. Foi até a cozinha e preparou um café para mais tarde comprar seu cappuccino. No mínimo quatro xícaras por dia, sim senhor. Sentou-se na sala e ligou a televisão para que sua cabeça não escutasse nada na sua casa vazia. E ali estava Lennon a fitando através dos pequenos óculos redondos de aro fino e cantando devagar ao seu ouvido “She loves you, yeah yeah yeah…”. Ela não pôde deixar de sorrir à visão desse pensamento. Jogou um beijo de sua mão espalmada à Lennon e chaveou a porta. Andando por aí, como na maioria das vezes, indo ao Café e depois saindo sem rumo, encontrou a árvore que havia chamado de Jenny. A árvore que antes era pequena e comum estava enorme e, na primavera, com grandes flores violetas. Então ficou imaginando onde andaria a simples garotinha sonhadora a qual ela tinha criado uma simpatia imensurável. Seja pela familiarização que possuía aos sonhos ou ao fato de ser sonhadora como a pequena, ou pela vontade de protegê-la, possuía um enorme desejo de reencontrá-la e vê-la sorrir, querendo ver um vãozinho nos seus dentes da frente, a perda do primeiro dentinho de leite, que ela nem ao menos sabia se já havia ocorrido.
23 de setembro de 2009

17 de setembro de 2009

12 de setembro de 2009

8 de setembro de 2009

4 de setembro de 2009

31 de agosto de 2009

O que é mais puro e perfeito que os olhos? As câmeras não conseguem capturar o que se vê ao lado deles. E como elas capturariam cada balanço delicado daquelas árvores de poucas e ralas folhas londrinas? E como capturariam também um momento pré-sono tão singelo e calmo e o som daquela música ou do silêncio? Do farfalhar das folhas secas caídas, se espalhando e se arrastando pelo chão molhado de pessoas infiéis, medrosas, corajosas, sentimentais e frustradas… Se a melodia era outra, as palavras saíam confusas e em uma desordem não habitual. E ela estava ali, tentando fotografar coisas que sua percepção conseguia assimilar e que jamais veria de novo. Tentava se explicar, justificar a si mesma, que não voltaria mais naquele lugar com aquela música e com aquele cheiro, e tentava também não se culpar por não ter isso de volta. Viver daquela maneira parecia aos olhos dos outros vazia e seca, mas o que ela queria mostrar era o modo de se viver, completamente estranho e, de qualquer jeito, feliz. Era como se viver. Quem lhe falava do céu tão colorido e criticava seu céu puramente cinza com tons avermelhados, achava que chorar era humilhante sem saber que crescia ao mesmo tempo, dizia também que era um modo difícil de sorrir. Mas ela sabia, sim, que poderia sorrir enquanto o frio estivesse ali. O que queria era encontrar alguém, precisava de alguém que pudesse abraçá-la, que sentisse como ela se sentia em frente ao frio, e desejasse o calor que ela desejava. Então, desesperadamente, pensou em voltar. Voltar de onde tinha saído. Não queria deixa seu céu. Queria abraçá-lo, queria tê-lo para sempre, queria aquele cenário até o fim dos seus dias. Era aquele cenário, aquela devoção cega, aquela utopia.