
Porque me encontro nas entrelinhas? “Quem é mais sentimental que eu? Eu disse e nem assim se pode evitar.”

Porque me encontro nas entrelinhas? “Quem é mais sentimental que eu? Eu disse e nem assim se pode evitar.”

O canto da porta vermelha do café estava bastante sujo, pintavam nele tons de ferrugem e algumas poeiras já de “estimação”. Agora a garçonete de cabelos ruivos já era conhecida, e lhe trazia um cappuccino levemente adoçado e muito quente, como era de seu gosto. Sorriu-lhe e deu as costas, ocupada em pegar o pano de limpar o balcão, que fugira das suas mãos por duas vezes seguidas. Seus sapatos pareciam dizer um caminho para seguir, porém seus pés apressados e embaralhados (que ela vinha notando desde que voltara a frequentar o café) demonstravam sua personalidade atrapalhada. Frequentemente via o dono do bar soltando gritos e ameaças por todo lado para os funcionários. Era gordo e tinha uma careca extremamente bem lustrada e, se não fosse pelo fato de ficar vermelho e se sacudir impacientemente, ninguém notaria a densa peruca de fios loiros que tomava sua cabeça. Apesar de vários pontos negativos que notava no dono do bar, ele sempre desejava bom dia para seus clientes, e saía resmungando, falsamente contente, para a rua pegar um táxi e ir ao mercado. Em todo esse tempo, ela continuava lá. Ele voltava com pesados sacos de papel, na sua cor escarlate e no calor que sua raiva transpirava. Ela ainda continuava ali, tomando seu café e analisando o canto escondido e acanhado da porta, como se tivesse vergonha da sua sujeira. Quando um vento arriscava-se a cruzar por baixo do vão da porta, o pó sacudia-se devagar, as partículas erguiam-se… E desciam. Repousavam. Novamente, erguiam-se e desciam… Então pediu à garçonete um papel e uma caneta, ao passo que esta saiu aos tropeços para entregar o pedido. Sentiu-se mal por pedir para a moça de cabelos ruivos voltar, mas ela foi disposta e voltou com um peso de papel, uma bonequinha em miniatura. Curvou-se na mesa e escreveu “Os cantos também precisam de vocês.”, colocou embaixo do peso delicado, juntou o cappuccino, abriu a porta tocando o tintintlar e ficou observando atráves do vidro a reação dos longos cabelos laranjas e olhos azuis.
“O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, onde nossa loucura é permitida e todos os nossos atos são inocentes.”

Sentia-se dolorida. Tinha acordado muito rápido e estava tonta. Mas nela ainda restava um suspiro quente, um resquício de vida humana. Enquanto aquilo existisse, ela estaria pronta para mais um dia. Um respirar cansado e profundo, que de qualquer forma, representava suas funções vitais com a mesma força de antigamente. Não se anulava e nem se diminuía, sabia da sua importância, embora ninguém pudesse demonstrá-la. Como se não bastasse, o céu mostrava um fino feixe de luz, só um. Naquele dia ela desejava mais do que nunca um raio de sol, um céu em cores e não em escala de cinza. O grande centro londrino estava cheio de pessoas indo e vindo, cartazes persuasivos com letras grandes, e nas vitrines, enormes letras expondo o comum OFF. Sua sombra era sua única seguidora, sua única admiradora, pelo fato de erguer-se imponente e possuir tons e arranjos próprios enquanto ela era apenas o sol barrado por um corpo e deveria estar aos seus pés por toda a vida. Aprendeu a amá-la. Esforçava-se para não lembrar, fechar os olhos e não ver, mas nem sempre era possível. O calor que recebia de estranhos era anulado pelo frio que encontrava quando seus dedos giravam a maçaneta da porta. Eram o par perfeito, o frio e o calor, a encenação e a vida real, a afetividade e a frieza, que se anulavam instantaneamente. Porém, ali o que realmente estava em jogo era o equilíbrio. Eles eram perfeitos, completos, e anulados. A chama e o gelo, mas não exatamente em todas suas formas. Elas não existem, e a isso chamam de utopia, porque sempre há aquele que doa mais do que recebe.
Fall for you – Secondhand Serenade.
E o refúgio dos seus problemas fugia de seu alcance. Era tão egoísta e arrogante que queria saber tudo, esquecendo que o importante é sentir. Se não achasse as palavras certas, como definiria as coisas? Precisava sentir, aprender a soltar suas expectativas. O que sabia é que de tanto negar suas próprias habilidades e seus talentos, já não ouvia mais a frase daqueles antigos amigos que faziam as sílabas de “Você é especial” soarem corajosas e persistentes. Nada enchergava nela mesma, os seus planos para o futuro eram tão incertos, e eram só planos, planos… Hoje e amanhã eram tão imprevisíveis quanto o seu humor. Sua euforia e sua tristeza se alternavam e chegavam no ápice. Como era dependente dos outros, mesmo inconscientemente. O frio e o escuro convidativo, pelo contrário do que se pensa, não era obscuro e inviável a sorrisos. Para ela era um momento incomparável do dia, tinha um significado igual ao de um céu azul e um sol brilhante para os outros. Não significava melancolia, significava poesia, significava fechar os olhos e sorrir, sentir o vento gelado bater no rosto e estar aquecida, significava simplesmente chorar de felicidade por presenciar uma cena única em um minuto jamais repetido num estranho segmento chamado tempo. E os dias passam e o céu muda, e a luz não se esgota nunca, pela noite ela apenas se esconde e amanhece anunciando mais um dia… Das nossas vidas. O que fazia era comandado pelo vento, ele a varria, a impulsionava, era só o vento que movia suas pernas que ficavam dia após dia mais pesadas, até chegar a porta vermelha e o letreiro azul do seu café. O que hoje vale um abraço? O que se vende? Carinhos não sinceros, sorrisos e abraços, todos comprados, e o que vale, então? Em seu passado ficavam aqueles sentimentos doloridos da falta de um abraço quando ele era pedido… Apesar de o ter ganho quando mais nova, com o passar dos anos a frequência que o recebia era menor do que antes. Sabia que isso não era falta de amor, só não conseguiam demonstrar…
"Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio."
Elegia, Carlos Drummond de Andrade.

Mantém teu cigarro aceso pra acender o seguinte, acredita cegamente no amor e na vida utópica, e no silêncio só o que tu serás capaz de lembrar vão ser os fatos, talvez sem a mesma importância de antes no hoje. Não sinta a falta deles. Tu já fostes tão frio, então o seja novamente ao lembrar que quando tudo estava nas tuas mãos, a única coisa que recebiam era indiferença dos teus olhos… Mas também não finja que um dia isso foi nada pra ti.
O castelo era de areia, o cavalo branco nunca tinha existido e o príncipe tinha uma personalidade diferente dos livros. Foi aí que eu vi que não existiam os contos de fadas.
“Eu sei não é assim, mas deixa eu fingir e rir.”

Aonde estava transformava seus dias à razão do Carpe Diem. Associava o prazer de abrir os olhos com o dia continuamente especial e feliz. Tratava o governo com igual insignificância que era tratada, preferia seguir sua vida com seu ar poético e conquistas tão fracas – porém importantes – quanto sua solidão. Parecia mais sozinha do que seus olhos diziam… O tanto que sua vida passava de abstrato se fazia concreto nas pedras, nas flores, na humildade das sementes que traria novas árvores. Destas, a vasta copa traria a sombra, e dos vastos galhos penderiam frutos doces e matariam a fome daqueles que dela provariam… E tudo era causa da semente. Tão pequena e tão significativa. E ela o que seria em relação ao público visionário que encontrava ali? Seu particular era visto e criticado? Seus olhos e seus sentidos eram percebidos por aqueles espectadores? Era difícil dizer. Raramente encontrava um sorriso, era mais comum encontrar olhos cansados que não conseguiam absorver suas razões ou olhares pesarosos, com sentimento de pena. Não eram olhares dignos pois nem ao menos sabiam o que acontecia com ela. Como uma armadura, traçava dos pés à cabeça um sistema isolado do meio em que vivia e achava sua proteção e companhia no silêncio e nos acordes da música. No sibilar rouco dos pássaros e na singela repetição dos grilos e das cigarras… Que não via há muito tempo. Já nem lembrava do dançar das águas doces e de beleza de uma praia, tão colorida e igualmente azul, onde o horizonte era apenas uma linha que dividia os tons de azul. O tempo se mostrava agradável e receptivo, então ela decidiu sair e encontrar as folhas e a arte. Seu porte feminino esbanjava sua sensualidade, antes reprimida em seu casaco comprido e escuro. Usava uma bela blusa branca que cruzava abaixo do cós de sua calça preta, e botas brancas que faziam o barulho que tanto a encomodava. Seus cabelos estavam soltos, e devido à passagem de duas estações, estavam muito longos e chegavam na sua cintura. Levava também um lenço vermelho ao pescoço. Tão irônico ao lembrar da Guerra dos Farrapos, e momentos que refletiam em seu lenço, que por sua vez, pintava levemente seu rosto de rosado claro e trazia a bravura e o sentimento nacionalista à sua memória. E o que levaria aquele vermelho embora um dia? O homem complexo e irracional que exulta o fato de pensar além dos animais mas porta-se como tal… Que não sabe amar e coloca acima de pessoas, laços e corações a sua ambição, que derrama líquido vermelho e lágrimas salgadas e densas… (…)

E agora… Qual seria o tema de sua vida hoje? O sentimento de abandono ocupava seu quarto, ela se deitava e sentia um afundar do colchão ao seu lado, a tão conhecida solidão apagava a luz e sussurrava em seu ouvido palavras de dor e sua garganta começava a doer, seu coração batia descompassadamente, dentro dos seus olhos sentia o peso daquela água salgada, e adormecia. Logo ao acordar, o dia refletiu em seu humor, um céu mais claro e receptivo transformaram sua tristeza em luz e cor. O que veria hoje? O que sentiria? Faria as mesmas coisas e não acharia mais interesse ali? Saiu para fora de casa pensando no que fazer. Era certo que viver somente com uma herança como a dela era uma ambição de qualquer pessoa, abririam mão de trabalhar e viveriam facilmente com muitos confortos. Sabia que lhe faltavam conversas, sorrisos e companheirismo. Como havia sobrevivido tanto tempo sem isso? Queria falar de poemas, romances e músicas, queria que seus cinco sentidos exercessem um papel importante e contrutivo de acordo com seus pensamentos afetivos. Já era outono… Já fazia tanto tempo desde o inverno que chegara ali. E aquele outono fazia as árvores derrubarem suas folhas (belos tons de dourado) lamuriosamente, lembrando que cada uma delas era uma parte do todo. Lamentando-se, de que perdendo aos poucos, no fim já não possuía nada. O formato delas não se definia. O chão era incrivelmente bordado de laranja, amarelo e tons de outono. E as folhas caíam… E os gramados das casas estavam intactos e extremamente verdes, os portões brancos estavam alvos e as casas iguais continuavam exatamente ordenadas como antes… É, é verdade. Ninguém arriscaria uma cor azul chamativo ou rosa pink entre aquelas clássicas casas brancas muito bem distribuídas e com seu terreno milimetricamente contado. À medida de seus passos, podia distinguir ao fundo de uma casa e outra, uma família sorrindo em mais um almoço, um cachorro correndo e fazendo brincaderas com três crianças, os pais filmandos os primeiros passos de um bebê. Era uma cena de cinema.

E durante dias foi assim que se seguiu. O homem e seu perfume com um cheiro forte que denunciava sua personalidade (Porque ele usava um perfume diferente agora?) olhava e sorria dizendo um “Bom dia”, ou mais raramente, “Como vai?” e seus dentes alvos apareciam, seu hálito quente parecia sempre se aproximar mais um pouco do seu rosto. Porém, somente seu silêncio conseguia responder àquele homem. E aquela coragem que sempre admirava em si mesma havia sumido. Logo que saiu dali, resolveu respondê-lo. Que mal teria? Seus cachos extremamente negros estavam comportados, seus dedos volta e meia os percorria, enrolando-os e soltando como uma pequena mola. Abriu a porta do café, surpreendidamente decidida, mas a linha de sua visão percorreu paralelamente ao chão, contornou os móveis, chegou ao balcão, e só conseguiu ver uma balconista que nunca havia notado ali. Tinha olhos muito azuis que faziam um enorme contraste com seu cabelo laranja. Vestia um casaco verde limão e em seu crachá estava escrito “Sarah” com letras bastante disformes. Sorriu para ela e perguntou se desejava o de sempre. De sempre? Quem era a funcionária nova que ela não lembrava? Suas mãos suavam e sacudiam-se de cima para baixo. Concordou com um aceno de cabeça.

Sentou-se e pediu seu cappuccino, sem olhar para o lado. Não desejava que seus olhos tocassem os olhos dele. Assim que seu café chegou, suas mãos tocaram no copo marrom e branco descartável e ela se levantou, e notou que os olhos do homem a seguiram até a porta. Ela não ousou virar para trás. Porque diabos tinha saído logo com aquela calça? A mais velha de seu guarda-roupa? E porque ele tinha encontrado ela exatamente quando parecia que um carro tinha passado por cima dela? Ela realmente não entendia o sentido de tudo isso. Estava morrendo de vergonha de uma coisa que não precisava ter. The Used, All that I’ve got. Ouvia calmamente enquanto andava pelas ruas tomando seu café. Era tão estranho o dia ter ficado repentinamente claro e mais quente. Tirou as luvas. Seria só ela com aquela sensação? Ou seria o efeito do cappuccino aquecendo cada mínima parte do seu corpo? 3 minutos e 58 segundos depois, Blue and yellow. Não conseguia acreditar que caminhava e cantava aquela música. Buried myself alive. Sua expressão traduzia tudo, cantava como se fosse a última oportunidade na vida que tivesse (logo depois aprenderia que era necessário ter essa sensação). Sua completa desentonação a deixava tão bonita, e com o volume extremamente alto, sua voz saía como um grito. Não se sentia tão empolgada assim a um bom tempo. Seria pelo repentino encontro? E de onde vieram todas essas perguntas? Apesar de estar assustada e em partes, com um medo sem justificativa, se sentia completamente bem.


Pensou que seria bom materializar seus rostos e suas expressões ao longo daquela rua, pelo menos por um tempo de adaptação. Jamais imaginara que não vê-los todas as manhãs e fins de tarde, seria uma perda sem medidas. Mas é claro que com o passar dos dias, que já eram meses, ela esquecera da cor apagada dos olhos do mendigo, do relativo tamanho das pernas da baixinha, do curvar dos lábios da menininha… E eles simplesmente se extinguiram e deixaram um vazio em branco. Sabia lidar tão razoavelmente bem com a solidão, que não imaginara quanta falta sentiria das expressões cansadas, sofridas e alegres que ao passar deixavam seu cheiro tão característico… Como sempre, era sua casa que abrigava seus pensamentos e seus temperamentos, tanto ruins quanto bons. E era o seu sofá verde que gelava seus pés quando ela procurava os esquentar. E era o mesmo sofá que ela dormia quando o sono não vinha em sua cama, e o sorvete que ali comia, era o único alimento que preenchia a sensação de se sentir sozinha. Suas mãos delicadas com seus dedos finos e compridos se contraíam com frequência e procuravam um canto entre seus próprios braços cruzados para mantê-las em uma temperatura mais confortável.

Quando o dia resolveu pintar o céu com suas cores mais escuras, a noite trouxe estrelas e nuvens pesadas, que consumiam aos poucos o brilho da lua. Aquela parte menos privilegiada pela iluminação pública, que recebia casais e amigos com mais afeto do que o grande centro iluminado, recebeu-a para olhar a luz se esvaindo da porção cinza que fazia parte de seus dias. Grande parte dela, tomada pelo frio, queria voltar pra casa e deitar, como sempre fazia. Mas a outra parte ansiava por ficar ali, mesmo que o frio consumisse todo seu ar quente. Devagar, muito devagar, suas pernas foram curvando inconscientemente, seus braços abraçaram seus joelhos, e seus olhos percorreram um círculo perfeito, procurando seus pontos de referências estelares. Aquelas pequenas gostas acumuladas ao longo do dia, eram grandes nuvens pesadas, que agora já tinham consumido a lua e as estrelas. E de uma maneira graciosa, levemente pintavam sua roupa de molhado. Agora, seus olhos desfocavam de céu para chuva. Levantou sua mão e a estendeu, e na palma dela, uma poça se formou. Apesar de estar totalmente molhada devido a um ficar um longo tempo ali, levou à boca e bebeu. Lembrava que fazia isso quando era menor, no chuveiro. O gosto não era o mesmo segundo ela, por isso qualquer água era digna de ser provada. Aquela água tinha um gosto mais doce, um gosto completamente diferente da sua água infantil, e da sua água cotidiana. Quando seus músculos já doíam e seus braços estavam completamente gelados, sabia que era a hora de ir. Levantando-se devagar, ergueu os braços e balançou a cabeça para os lados, tentando parecer mais relaxada do que quando sentara ali. Conseguia olhar por fora, e imaginava o pensamento de quem a via, exatamente como fez quando passou nas vitrines naquela tarde. Extinguiu seus pensamentos, e foi para casa. Seu salto fazia um barulho cômico, na água pelas ruas. Não era a situação apropriada, mas ele insistia em fazer seus lábios sorrirem.

E mais um dia havia se passado no seu mundo pequeno. Seus olhos cor de bronze e suas bochechas rosadas lembravam uma boneca de porcelana, clássica, de pele branca como papel, mãos delicadas e intocáveis, e aquele dia sentia-se mais espontânea do que nos dias anteriores. De fato, o dia amanhecera um pouco mais quente e sua temperatura corporal insistia em refletir suas variações em suas pequeninas maçãs faciais. Lembrava que devido à onda de seus pensamentos terem tomado outros rumos nos últimos dias, seu cappuccino havia sido deixado de lado. Seu cachecol enrolava seu pescoço, com seu cheiro de perfume floral. Balançando-o e juntando-o ao seu corpo, seu perfume se espalhava pelo ar e aquecia sua respiração, diminuindo a fumaça que saia de sua boca que tanto lhe encantava, devido ao frio típico da estação. Ah, como aquele frio fazia bem. Sabia também que ele não cessaria enquanto a natureza estivesse perfeitamente em ordem, e saber que todos os dias teriam aquele gosto de inverno, aquele tempero frio que fazia sua vida aquecer, a fazia sorrir. Com aquele mesmo sorriso que ela não perdeu e nem perderia por medo de sorrir… Seu mp4 tocava Kings of Leon. Fazia tanto tempo que não ouvia aquele som tão delicioso… Passava pelas vitrines e fazia questão de olhá-las, se admirando e vendo a maneira como caminhava, e confessando suas loucuras internamente por saber que do lado de dentro das lojas, se questionavam e perguntavam qual era o problema da mulher que seguia seus olhos de ponta à ponta do vidro.

Se recusava a possuir a mesma vida de antigamente. Se as notas encaminham um som, se a hora, na sua simples forma e sua humilde continuidade, transforma um momento qualquer em significativo e em uma importante lembrança... Porque deveria fechar os olhos e aceitar que suas mãos não conseguem simplesmente refletir seus atos? Sua defesa estava instável, qualquer coisa naquele momento, ela sentia, poderia ser prejudicial. Chorar não era seu forte. Quanto mais lamentar por oportunidades e sonhos perdidos. E seu cérebro trabalhava contra seu sistema, seu pensamento oscilava entre achar que tinha jogado seu sentimento no chão e o esmagado, e entre coordenar seus passos através da sua vida cansada de amar. Foi nesse momento, sentada dentro de sua casa (que jamais aquecia pela inutilidade da lareira), no seu tão desejado sofá verde, que começou a enxergar mais além do que já tinha vivido. Sorriu sem medo de perder esse poder de sorrir, colocou suas mãos nos cabelos e suavemente fez o contorno de seu braço. Afastou o cabelo dos olhos, impulsionou-se com suas mãos espalmadas, e levantou. E dali em diante, resolveu não acreditar no amor. Parecia frio e cruel, mas ia custar a acreditar em uma vida que não se completa com alguém, que não parte da teoria da metade da laranja. Seu pensamento não esquecia, não diluia as imagens. A nevasca que antes era leve e não passava da calçada, agora tomava proporções maiores e aquele branco transparente com gosto de frio, agora era um branco gélido, com gosto de saudade. E ela, no mais profundo sonho, ainda possuia o desejo de amar.