18 de janeiro de 2010


Os dias eram lentos. De vez em quando, seus olhos negros avistavam pássaros no céu. De fato, era raro. Quando isso acontecia, ficava paralisada, tentando entender como o leve das asas poderia ser tão fascinante. E foi em um desses momentos, quando sentia-se sem alma, quando entender ia além do seu pequeno mundo, que o homem de Saint Paul apareceu. E ele veio em direção a ela, com um sorriso inconfundível nos lábios, mostrando o brilho dos seus dentes perfeitos, que as asas incríveis que batiam acima do rosto dela não passavam de asas. E os pássaros não passavam de míseros pássaros. Era a teoria da anulação. Bastava que aquele rosto tão bem desenhado se apresentasse aos olhos, que o resto não era nada além de uma imaginação para apresentar-se fascinante. A análise daquele rosto, agora, era muito mais importante do que os pássaros. É claro que, quando o rosto fosse cruzar por outras pessoas – tão encantadas por aquele sorriso quanto ela – e a deixasse ali, parada, sem rumo, os pássaros seriam novamente o alvo do negror daqueles olhos profundos. E ele aproximou-se, desviou o olhar, com medo que aqueles grandes olhos da moça pudessem encantá-lo para sempre, e sorriu, assistindo o espetáculo do céu transformando-se em tons de vermelho. Ela mantinha-se incoerente. Olhava pro seu rosto com uma expressão indefinida. Ela queria senti-lo antes que ele simplesmente virasse e fosse embora. Então fitava-o continuamente. Foi quando seus olhos se encontraram, e repentinamente, ele sussurrou “Bom te ver novamente” e foi embora. Foi como se um pedaço do seu chão fosse tirado. E ali o seguiu, até que sumisse entre as árvores do parque pouco iluminado. Virou-se e procurou os pássaros, mas não os achou. Então, embora começasse a fazer um frio incomum, decidiu ficar um pouco mais ali. Talvez o tempo pudesse trazê-lo de volta. Era questão de acontecer quando menos esperasse. E ali, ela contava as horas e as situações, o imaginando chegar.

21 de dezembro de 2009


Eram folhas amareladas. Para dar um tom mais clássico, havia queimado levemente as suas pontas. Que tipo de autor queimaria as pontas de folhas amareladas? Não era um drama. Era um conto de fada, daqueles com finais felizes. Pelo conforto que ele trazia a cada página folheada, era feito exatamente sob medida para àquelas situações. Talvez o autor se importasse com o sentimento do leitor mais do que o esperado, ou só quisesse fazer aquilo pra deixar mais bonito. Não importava. Levantou-se e foi até a janela ver se o tempo estava ao seu favor e, fitando Lennon, decidiu caminhar. Guardou o livro no maior bolso do casaco e suas bordas queimadas ficaram para fora, dando um ar de extremamente decididas. Imaginou que não seria possível ficar muito tempo fora de casa, sentia-se vagamente perdida longe das suas paredes e do seu chão. O negro dos seus cabelos fazia par com seus lábios vermelhos, e seus grandes olhos escuros marcavam profundamente o seu rosto. O cappuccino que comprara estava tão quente quanto gostava, e seu perfume floral exalava cada vez que passava por alguém, fazendo todos, em sequência, virarem os olhares ao seu encontro. Sentou-se no primeiro banco que havia livre. Sentia-se melhor quando não havia ninguém olhando. Tirou o livro do bolso, que dessa vez parecia muito menor, pois não abrigava nem metade do livro que antes só possuía algumas pontas de folhas para fora, e na sua contra-capa havia um esboço de um desenho. Entre várias linhas, identificou duas pessoas abraçadas, como se o último dia de sua vida fosse aquele, e não existisse amor maior que o representado ali.

6 de dezembro de 2009


Queria de alguma maneira tentar explicar porque as músicas refletiam dentro de si mesma. Eram elas que faziam suas lembranças voltar, eram elas que inspiravam e que deixavam em seu interior um grito preso, um pedaço de recordação trancado na garganta, versos desejosos de voz, até mesmo lágrimas, o ápice de seus sentimentos. Não queria deixar os dias irem sem um sentido. Eram as antigas e clássicas contradições, que moviam as horas em um ritmo cansativo. Suas paredes chamavam alguém, até mesmo Lennon sabia que ela precisava de um complemento, e não sua metade. Não poderia se anular. O seu sofá verde mostrava que além dela, mais alguém deveria sentar-se ali, e ocupar o lugar das almofadas amarelas e laranjas com franjinhas que trouxera da casa da pessoa que a guardava em baixo das asas. O espaço vazio do sofá procurava ocupar com controles da televisão, e coisas tão supérfluas, que no lugar de substituir alguém, só a fazia lembrar mais que o lugar deveria ser ocupado. Mas não queria achar ninguém. A razão que por muito tempo procurava em sua vida, já havia sido descoberta. O céu que deliciava seus olhos, a porção escura e antiga da cidade, as praças convidativas que conhecia, os cappuccinos do café de portas vermelhas, os livros, as músicas. Tudo isso era sua felicidade, que não imaginava como alguém pudesse fazê-la, ou trazê-la. O homem de Saint Paul estava muito ausente, tal como seu perfume no cachecol. Ela só não queria depender de ninguém, não queria depender de um sentimento que amanhã poderia não existir. “Does anybody else in here, feel the way I do?”

26 de novembro de 2009


Eram aqueles detalhes invisíveis aos olhos cegos dos outros que a faziam lembrar que eles mesmos faziam a diferença. Quando aquela cerca viva tomando conta da parede de uma casa fosse cortada, o que ela perceberia ali seria somente mais uma parede escura, antes branca, pela ação da chuva, dos ventos, da poeira e do esquecimento. É que ela talvez não enxergasse o bonito no comum. Ou talvez o comum pudesse ser bonito, como os versos que trazia de Carlos Drummond de Andrade, o qual provava que a poesia poderia ser feita até mesmo de uma pedra, e ela poderia traduzir em úmida, solitária, rígida... E ela seria significativa para alguém, sempre existe alguém. É a antiga teoria do chinelo velho para um pé torto. Mesmo que não fosse alguém, seria uma causa, uma ideia, um sentido qualquer. Porque o sentimento de reciprocidade dava a ela segurança, como se recebesse algo por aquilo que doava. Obviamente, não fazia sentido, não recebia nada. Isso por muito tempo doeu a ela... É que hoje era mulher, sabia que as decepções, tanto de amor quanto de qualquer outra espécie, eram inevitáveis e não eram o temido fim do mundo. Sempre haveria mais e mais, pra fazer se ocupar com a presente e esquecer a passada, mesmo que da pior maneira. Mas só de andar por aquelas ruas... Sentindo aqueles ares, procurando em rostos algum já conhecido, comprando seu cappuccino e voltando para casa sempre da mesma maneira, sentia que jamais fora tão feliz em sua vida. Era o cinza, que sempre chamava pelos seus olhos.

17 de novembro de 2009


Entre aquelas velharias que não tinham serventia, encontrava-se uma velha foto. Nos anos, o tempo havia desgastado seus cantos, os pequenos animais haviam feito mínimos buracos ao longo de todo o rosto de bebê que ali se encontrava. Era confuso olhar cada pedaço e recordar exatamente do que se tratava. Porque antigamente aquela mesma foto em tons apagados devido ao advento de novas máquinas, teria um valor inestimável e a faria possuir sentimentos. Hoje já não sentia mais isso. Estava apagada. Então, devagar, soltou a foto na mesa do hall e foi até o café, buscar o cappuccino. A garçonete ruiva estava lá, derrubando seus panos e anotando pedidos. E para sua surpresa, o homem de Saint Paul estava sentado ao balcão, conversando com o dono mal humorado do bar. Entre suas mãos, jornais, notícias atuais, fotos e tragédias. Sem sentido, pensou. Sem reflexões também. Afinal, pensar em tantos problemas antrópicos a deixava mal. Pegou o cappuccino e não se atreveu a olhar para o homem da catedral. Ele a fizera pensar por muito tempo em alguém que a aquecesse no ar frio de Londres, e preferia não ter que relembrar que fora em partes ignorada. Virou, abriu a porta, saiu pelas ruas ouvindo sua música, entrou em casa depois de ter passado pelo velho caminho de pedras, e pegou a foto velha. Sabia o que deveria fazer.

17 de outubro de 2009


Partimos do pressuposto de Adão e Eva. Certamente mantemos nossas dúvidas se a maçã nos condenou a seres pensantes, se era nosso “destino” ou se ela realmente existiu. E é claro que tudo isso nos leva novamente a questionamentos e loucuras datadas desde antigamente.
Então, pode-se supor que havia mesmo uma maçã ou que houve a ruptura do núcleo de um átomo, pois chegaríamos ao mesmo objetivo: nós. E que não haja nem religião nem ciência que predomine sobre minha conclusão.
Se estivéssemos nus, fazendo colheitas em plantações de subsistência e nossos maridos caçando para a janta, poderíamos não ter tecnologia ou qualquer coisa tão habitual ao nosso alcance que não sentiríamos falta, afinal, não saberíamos de sua existência. Poderíamos evoluir aos poucos, mantendo nossas classes sociais de acordo com a aldeia, tendo nossas diferenças não tão acentuadas como as perceptíveis atualmente.
Aí entra o papel do fascinante homem em partes desastrado. Mas não é pra ser uma história cômica. Do caminho das Índias ele fez um grande desvio e acabou encontrando a América. É claro que na época era considerado um descobrimento e Colombo ficou com a glória de encontrar uma nova civilização. O que foi descartado dessa história talvez fosse importante, ou não. Essa é a nossa história, a história de um povo que já lutou contra o Império, a ditadura. Se fosse diferente, poderíamos desenhar vários outros caminhos até chegarmos no melhor. O problema é: como saberíamos chegar até ele?
Da ambição chegamos à maçã, e da ambição também chegamos à teoria dos átomos e até onde a vantagem de ser pensante nos levou.
Então, se ocorresse progresso no continente que segundo os livros já era evoluído, um dia nos achariam e a colônia de exploração seria iminente. Tamanhos recursos encontrados aqui seriam atrativos demais para ser deixado passar em branco. E assim, seu desenvolvimento seria muito maior do que à época que nos colonizaram.
De tudo isso, vem a força de vontade de sobrevivência, que fez o homem se adaptar inconscientemente a tudo que vinha passando. Suas necessidades o faziam se adaptar, e essa constante mudança, felizmente ou infelizmente, ninguém é capaz de afirmar sem prós e contras, o fez ficar cada vez mais próximo dos sete pecados. Evidentemente, esses foram ditados também. Ainda existem aqueles que sofrem o medo de cometê-los.
As organizações de sociedades antigas, sem o advento do comércio, indústria ou qualquer outro tipo de atividade que envolvesse sistemas sociais, eram beneficiárias igualmente. Então se fala da utopia, pois desde os antigos, não houve jamais uma sociedade sem diferenças sociais ou raciais. Mesmo dentro de famílias nota-se uma posição patriarcal dos pais sobre os filhos, sobretudo o homem, que desde o princípio era considerado o chefe de família.
Então até hoje me pergunto: se essa maçã existia, Adão e Eva foram tão ambiciosos a ponto de prová-la e fazermos andar vestidos, pensando e julgando (até mesmo mal) tudo que nos contradiz e não nos favorece. Agora, se ocorreu a explosão dos átomos, julgo a mim mesma incapaz de julgar alguém, porque não existia Adão e Eva de acordo com a teoria da evolução. Consideremos Adão e Eva nossos antecedentes e nossos iguais e nos espelhemos neles para nos tornarmos tão ambiciosos que mal conseguimos enxergar além de nós mesmos e, quando conseguimos, não nos movemos para alcançar a mão ao nosso semelhante.

7 de outubro de 2009


De fato, sentir saudades era dolorido. É claro que era uma das coisas mais comuns encontradas no emocional de alguém. O dia estava ensolarado, e ela viu novamente a sua sombra cruzando paredes e pedras disformemente. Lá estava ela aos seus pés, representando a única coisa que não era menor que ela, e sim “alguém” que a idolatrava por nunca possuir a cor e o privilégio da vida. No resto, só tinha uma coisa a fazer: segui-la. Incessantemente. Até que o sol se pusesse, e a escuridão chegasse fazendo ela se unir à outras sombras que possuíssem o mesmo sentimento de inferioridade. Como ela já tinha observado há muito tempo atrás, tinha uma simpatia com sua sombra. Se parecia como uma amiga, pois a seguia até mesmo pelos caminhos mais tortuosos… E no escuro, quando achava que já não a via mais, descobria que a escuridão era uma grande aliada. Como alguém a disse um dia: “Os momentos e sentimentos são vividos aos extremos pelos poetas.”. Ela achava mais do que necessário possuir a solidão como um conforto e um incômodo. Paralelamente às antíteses, sentia-se confusa, frequentemente acordava e apenas observava a janela à sua frente, assistindo o tempo passar, ouvindo os segundos irem embora a cada tique compassado do seu relógio de cabeceira. Talvez fosse fácil e simples assim, não fazer o tempo valer a pena, e sim apenas deixá-lo passar. Depois de arrastados minutos, sua parede áspera e verde limão, nada condizente com o andar clássico abaixo de seu quarto, a chamou. Ela voltou à si mesma. Precisava levantar, desejar “Bom dia” à Lennon e buscar o seu cappuccino. Ali, ela somente sobrevivia.
“Escape from this afterlife.”

30 de setembro de 2009


Sentou-se no café. Sua fumaça fazia os contornos do seu rosto, exatamente como um sonho que teve há muito tempo atrás, em Saint Paul. O quente queimava seus lábios, sua pele sentia o sentido do café descendo em sua garganta, era a justificativa de seu nervosismo a consumindo. Porque todos que sempre a tiveram a jogaram fora, como simples papéis, uma conta de supermercado, um bilhete de geladeira. Não saberia o quão valiosos poderiam ser, por isso em sua caixinha guardava até uma pequena embalagem de um remédio. Era o caso que, quando o via, se reportava ao antigo. Mas as pessoas sempre eram frias e, as que não eram, tinham um sentimentalismo tão exagerado que não viam nada além do que quisessem. Não existia meio termo. Ou o papel ficaria na geladeira para sempre, ou iria ao lixo junto com tantas outras coisas. Mas aí o sentimental vai se questionar se valerá mesmo o custo de manter no mínimo dois quartos abarrotados de botões e capas de cd’s quebrados que, por exemplo, lembram uma saia destituída do seu completo e um descuido por estar ao lado de alguém especial. E aí tanto cuidado com objetos pessoais acabar se tornando maçante ou prazeroso, e é claro que o maçante, ao se desfazer de tudo, vai se tornar um frio por não guardar mais datas ou um desinteressado em um passado bom. O prazeroso vai ser taxado de louco por guardar coisas que para os frios são chamadas de “lixo sem valor”. Mas entre frios, sentimentais, maçantes e compulsivos, há uma data (sempre há ao menos uma) que nunca será esquecida e um papel ou um pequeno fruto em um pequeno saco que jamais irá ao lixo.

26 de setembro de 2009


Levantou-se calmamente para ver o clima do seu novo dia, e alegrou-se por sentir mais um dia típico de Londres. Só que esse dia era primaveril. Buscou lá no fundo do seu armário surrado uma calça vermelha e preta e vestiu-a. Depois colocou uma blusa e um casaco que alcançava seus joelhos, ambos pretos. Achou o seu lenço vermelho e o amarrou ao pescoço. Como em outros dias, os seus cabelos estavam ondulados, porém, no seu lugar costumeiro. Já estava farta de pensar em sentimentos. Se fumasse, provavelmente já teria acendido ao menos uma carteira de cigarros para controlar sua ansiedade sem origem nem objetivo. Se fumasse mas quisesse parar, tinha a certeza que teria uma recaída. Mas, ah… Aí estava a notícia boa: ela não fumava. Uma preocupação a menos, enfim. Só que ela ainda possuia uma dependência cuja abstinência já estava a deixando elétrica. Precisava do seu cappuccino. Não sabia como as pessoas poderiam não gostar de café. Até o aroma parecia em partes satisfatório da sede. Passou pela sala e deu uma piscadinha para o grande quadro envelhecido de John Lennon em sua parede. Foi até a cozinha e preparou um café para mais tarde comprar seu cappuccino. No mínimo quatro xícaras por dia, sim senhor. Sentou-se na sala e ligou a televisão para que sua cabeça não escutasse nada na sua casa vazia. E ali estava Lennon a fitando através dos pequenos óculos redondos de aro fino e cantando devagar ao seu ouvido “She loves you, yeah yeah yeah…”. Ela não pôde deixar de sorrir à visão desse pensamento. Jogou um beijo de sua mão espalmada à Lennon e chaveou a porta. Andando por aí, como na maioria das vezes, indo ao Café e depois saindo sem rumo, encontrou a árvore que havia chamado de Jenny. A árvore que antes era pequena e comum estava enorme e, na primavera, com grandes flores violetas. Então ficou imaginando onde andaria a simples garotinha sonhadora a qual ela tinha criado uma simpatia imensurável. Seja pela familiarização que possuía aos sonhos ou ao fato de ser sonhadora como a pequena, ou pela vontade de protegê-la, possuía um enorme desejo de reencontrá-la e vê-la sorrir, querendo ver um vãozinho nos seus dentes da frente, a perda do primeiro dentinho de leite, que ela nem ao menos sabia se já havia ocorrido.

23 de setembro de 2009


Da sua infância bem vivida, lembra em partes do medo do seu quarto e de carinhos paternos. E logo relembrou de outra sucessão de fatos. Era pequena, já não lembrava mais sua idade exata e também achava um detalhe dispensável. Seu maior espelho era sua mãe. Não que hoje fosse diferente, mas quando pequena, em sua sociedade limitada à quatro paredes da sua casa, sua mãe era realmente uma princesa, sereia e outras rainhas de contos de fadas. Logo que cresceu um pouco, ganhou uma pequenina sandália com duas tirinhas. O pequeno salto a deixava orgulhosa de pensar em ser como sua mãe um dia. Saiu pela rua, aquela rua de pedras e poeira, para poder mostrar a importância da frase da sua mãe, “Que linda, já é uma mocinha”. Como criança, sempre pensando em ser mulher, começou a correr, sem lembrar das tirinhas e do pequeno salto. Depois disso, além das vagas lembranças, tem a recordação do colo quente do seu pai e das mãos cuidadosas da sua mãe fazendo curativos nos seus joelhos e em uma das suas mãos. A sua pequena sandália tinha arrebentado e, na sua mente, ser “mocinha” já não era mais possível. Como sentia saudade da sua inocência infantil, e sabia que esse tipo de inocência não era presente nas pequenas “mocinhas” de hoje.

17 de setembro de 2009


Sua família não estava mais ali, já não assistia mais o rosto dos seus pais, das pessoas a quem desejava. No íntimo, sabia que estava sozinha e queria que tudo isso fosse fruto da sua imaginação, um fruto amargo, azedo, mas um fruto benéfico. Ali ela pesaria o tamanho dos seus benefícios e o tamanho da solidão que em dias mais fechados a perguia sem sentido. Então, enfim, chegava à conclusão de que o mundo em que vivia era puramente seu, que cada um era pleno em seu próprio espaço, porém, a maioria das pessoas buscava a felicidade no “clichê” humano, e essas que viviam assim, pensavam sem falar, julgavam em seus pensamento distante o jeito do frio (de ambos sentidos) da vida dela.

12 de setembro de 2009


Logo que entrou em casa, sentiu o delicioso perfume floral. Ela sentia o gosto do ar doce, e ao olhar pro lado, avistou seu cachecol vermelho. Era dali que o cheiro se propagava. Sentou-se devagar. Então vieram aquelas cenas, uma a uma. O dia era cinza, naquele cinza costumeiro e dono de uma perfeição incomparável. Existiam duas coisas além do mesmo céu. Existiam gotinhas minúsculas que caíam pintando seus fios de cabelo escuro. O frio era habitual, não era de tanta importância como a chuva fraca. Era nublado também, escuro. Mas o que a fazia lembrar de tudo isso era a outra coisa que até ali não fazia parte do seu espaço clássico e sentimental. Era alguém. Ela lembrava que a partir daquele dia chuvoso aquele alguém fora por muito tempo uma espécie de razão de viver. Era o seu primeiro namorado. Foi quando ela abriu os olhos e viu que as cenas se passaram em um sonho. Ela estava com frio, as horas tinham se passado em uma velocidade incalculável. Tudo continuava intocado, da mesma maneira que antes. Somente o tempo não tinha parado, incessante, sufocante. Hoje ela era mulher, parecia ter uma vida de fábulas, de poemas, uma vida tratante e corriqueira, parecia falsa. Mas ela sabia que era real, muito além de um beliscão no braço que chame do sonho à vida. Concomitantemente com sua vida adolescente, podia jurar com precisão as recordações das noites mal dormidas e de uma agenda escolar que, ao contrário de anotações de provas, guardava palavras intensas. Como era confortante estar ali, deitada no escuro, no sofá da sala. Apesar do frio, ela estava no macio de Londres. Levantou e não ousou ligar a luz, foi até o banheiro e tomou um banho quente, depois deitou-se novamente e abriu uma antiga caixa que guardava seus sonhos irreais. Ali ela encontrou coisas que não lembrava, e depois de passar os olhos devagar, percebeu que não queria vê-las naquela hora, e a fechou.

8 de setembro de 2009


Sentada em frente ao noticiário pouco entendido, ela balançava freneticamente uma das pernas cruzadas. Sentia-se nervosa, mas sem um motivo aparente. Remoía palavras ditas e não ditas de seu passado. Típico da sua personalidade, aquela dificuldade de superação e aquele baú cerrado de uma poeira doentia, de uma poeira viciosa. Metáforas à parte, ela já sabia que passado não mudava. Por quanto tempo desviou seu foco por uma decepção? Logo, pensou no desconhecido de Saint Paul. Ele não aparecera mais, ela nunca mais o encontrou. Talvez ele fosse significativo e ela não tinha ideia. Seus pensamentos eram duvidosos e aquele dia se tornava mais triste, se julgava mal, porém, continuava a se julgar, continuava a pensar que cada um que conquistasse, da menor das maneiras, viraria as costas para ela. Então lembrou de tudo que já havia passado, de todas palavras que um dia já conseguiram, por um momento, demonstrar um resquício de vida. Mas ela sabia viver. Ela era muito sensível, mas também era muito forte. Eram só fases, ruins ou boas, logo que saísse o sol, sem aquecer, só para ceder um pouco de luz entre as nuvens escuras, ela sabia que se sentiria melhor. O sol passaria entre aquelas construções góticas, antigas, se dissiparia entre alguns vitrais coloridos encontrados em algumas casas rústicas, esbarraria nas poças, na umidade das paredes e pedras… E iria refletir no seu rosto, nas suas maçãs faciais.

4 de setembro de 2009


Abriu os olhos devagar, e ficou deitada na cama macia, esperando o resto da escuridão acalmar seus olhos. Devagar virou-se, encostou o ouvido no travesseiro e espalhou as pernas através de toda a cama procurando um canto gelado. De repente aquele calor que ela sentiu a noite toda exigia um lugar frio. Logo que achou, repousou seus pés devagar e os músculos que estavam contraídos agora estava relaxados. Então ela ouviu seu coração. Cada mínima batida, o compasso, a marcha lenta que fazia continuar ali. Ela conseguia ouvir perfeitamente a diminuição do ritmo quando sua respiração não estava mais ofegante. Subitamente, as batidas lentas lembraram da sua infância. Era aquela casa pequena, feita de madeira, que por dentro possuía divisórias de madeira clara, os quartos eram pequenos e uma beliche ficava no pequenino cômodo central, que tinha acesso à cozinha e à sala. Seus lençóis eram pintados de dança, um homem e uma mulher, que vestia um vestido longo, dançavam da cabeçeira aos pés da cama. Além disso, vários espaços eram pintados por listras em azul e amarelo. Seus olhos relembraram tudo isso. As batidas puxaram seus pensamentos. Era ela, com seus 9 anos de idade, sentindo-se incomodada como hoje em ouvir seu coração. As luzes apagaram e seu rostinho infantil e pacífico virou para a divisória da parede, aonde havia uma estrelinha que brilhava no escuro, como uma mini companheira. Seus rosto colado ali, em um espaço milimétrico, fazia sua respiração soar mais alta. Naquele canto frequentado por ela todas as noites de sua infância, encontrava um lugar seguro. Seu medo de criança, de monstros embaixo da cama, era denunciado pela proteção que sentia quando se isolava do restante da cama. Sentia também a mão de sua mãe tocar seus braços pequenos e frágeis, para trazê-la ao meio da cama, mas a relutância era tanta que, no fim, sua mãe a deixava com um beijo e um “Dorme com Deus e com os anjinhos” e resolvia ir deitar. Só que hoje ela dormia virada para o corredor, sem medo. Todavia, sentia falta de dormir no canto da parede, se isso significasse um beijo antes de dormir todas as noites.

31 de agosto de 2009


O que é mais puro e perfeito que os olhos? As câmeras não conseguem capturar o que se vê ao lado deles. E como elas capturariam cada balanço delicado daquelas árvores de poucas e ralas folhas londrinas? E como capturariam também um momento pré-sono tão singelo e calmo e o som daquela música ou do silêncio? Do farfalhar das folhas secas caídas, se espalhando e se arrastando pelo chão molhado de pessoas infiéis, medrosas, corajosas, sentimentais e frustradas… Se a melodia era outra, as palavras saíam confusas e em uma desordem não habitual. E ela estava ali, tentando fotografar coisas que sua percepção conseguia assimilar e que jamais veria de novo. Tentava se explicar, justificar a si mesma, que não voltaria mais naquele lugar com aquela música e com aquele cheiro, e tentava também não se culpar por não ter isso de volta. Viver daquela maneira parecia aos olhos dos outros vazia e seca, mas o que ela queria mostrar era o modo de se viver, completamente estranho e, de qualquer jeito, feliz. Era como se viver. Quem lhe falava do céu tão colorido e criticava seu céu puramente cinza com tons avermelhados, achava que chorar era humilhante sem saber que crescia ao mesmo tempo, dizia também que era um modo difícil de sorrir. Mas ela sabia, sim, que poderia sorrir enquanto o frio estivesse ali. O que queria era encontrar alguém, precisava de alguém que pudesse abraçá-la, que sentisse como ela se sentia em frente ao frio, e desejasse o calor que ela desejava. Então, desesperadamente, pensou em voltar. Voltar de onde tinha saído. Não queria deixa seu céu. Queria abraçá-lo, queria tê-lo para sempre, queria aquele cenário até o fim dos seus dias. Era aquele cenário, aquela devoção cega, aquela utopia.